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Terceiro Setor

Entrevista com Neide Santos - "Tudo que me foi negado busco proporcionar para meninas e mulheres do Capão Redondo"

Fundadora do Projeto Vida Corrida conta como fez da falta o fôlego para fundar e tocar um ecossistema de esporte que impacta vidas na comunidade da zona sul de São Paulo. Por Larissa Saram


Fundadora do Projeto Vida Corrida conta como fez da falta o fôlego para fundar e tocar um ecossistema de esporte que impacta vidas na comunidade da zona sul de São Paulo. Por Larissa Saram

Neide Santos é fundadora do Projeto Vida Corrida, que transforma a vida de meninas e mulheres do Capão Redondo, em São Paulo | Foto: Reprodução Instagram

É difícil encontrar quem não se impressione com a biografia de Neide Santos. Mesmo eu, que já tinha pesquisado muito, fiquei tocada com a trajetória que a ouvi contar durante uma videochamada para esta edição do "Mulheres e a Cidade". Nascida em Porto Seguro, Bahia, foi enviada separada dos irmãos para viver com uma família de São Paulo. Aos seis anos, foi colocada para trabalhar numa oficina de costura, num esquema análogo à escravidão, e sofreu inúmeros abusos. Foi resgatada e enviada para a casa de tutores que buscaram e encontraram a avó biológica de Neide. Voltou para Porto Seguro e, depois, definitivamente para a zona sul da capital paulista, agora na companhia de três irmãos. Vieram para ficar com a mãe, que já tinha aqui mais dois filhos, e trabalhava como doméstica. Neide ficou responsável por cuidar dos irmãos e, para isso, precisou abandonar o sonho de ser uma atleta olímpica de corrida.

Trabalhou como costureira, escreveu cartas para analfabetos, cuidou de vizinhas no pós-parto e depois dos filhos delas, quando acabavam as licenças. "Sempre dei nó em pingo d"água. Nunca me conformei, me fiz de vítima ou de coitada", me interrompe Neide, enquanto solto expressões de surpresa ao ouvir o seu relato, contado numa voz emocionada, mas ágil, com um grande volume de palavras reunidas entre espaços de pouca respiração. Penso na capacidade pulmonar da Neide, fortalecida por 51 anos de corrida na rua. Ela não interrompeu o esporte nem quando perdeu o companheiro, assassinado pela Ditadura Militar, ou o filho mais velho, Mark, vítima de um assalto.

Retomo a concentração na imagem e voz da mulher de 65 anos, miúda, cabelos quase raspados, sentada virtualmente à minha frente. Ela fala sobre um móvel de madeira, que aparece atrás dela na tela: "Você viu que bonito? É tudo doação. Adoro minha casa, moro desde sempre aqui, é uma habitação popular. [Ela se vira para mostrar] Ó lá minha santinha. Rezo o terço todos os dias, desde que vim da Bahia. Aprendi com as mulheres da roça. O melhor presente que dou para as pessoas é uma oração. Quando vivi na oficina, não tinha o rosário, e daí eu usava os dedos para rezar, sem nunca perder a esperança que um dia eu sairia de lá. Sempre fui essa pessoa esperançosa".

Então me dou conta que o que me impressiona agora não é mais a história em si. É a capacidade de Neide em acreditar. Ou melhor, em não deixar de acreditar. No futuro, no outro, nela mesma. A corrida não fortaleceu só o sistema respiratório de Neide, fez dela alguém que não para até alcançar o tamanho do desejo. E o maior deles ela já realizou, que é o Projeto Vida Corrida. A organização criada em 1999 e hoje mantida com apoio de marcas como a Nike, partiu do esporte para se desdobrar em um ecossistema de educação, dignidade e bem-estar, que viabiliza acesso, oportunidades e conhecimento para meninas e mulheres do Capão Redondo, onde Neide mora desde 1977. Na conversa a seguir, ela conta mais sobre o projeto, da rotina de treinos na rua e do que espera para o futuro.

Participantes do Vida Corrida em uma das ações do Projeto | Foto: Reprodução Instagram

Larissa Saram: Você lembra da sensação que teve quando correu pela primeira vez?
Neide Santos:
Isso é inesquecível. Estava jogando handebol num campeonato intercolegial e aí faltou uma menina no revezamento 4×100. O professor me tirou da quadra e me levou para a pista. Eu, lógico, questionei, nunca tinha competido em atletismo. Aí ele falou: você é mais ágil em quadra. Toda vez que a gente vai aquecer lá no colégio, é você que puxa todo o time, que vai na frente. Vai ser moleza correr 100m. E aí eu corri 100m, nós ganhamos a competição e pela primeira vez eu trouxe uma medalha para casa. Tenho ela guardada até hoje. Aquela medalha me empoderou e me encheu de sonhos.

LS: Quais sonhos?
NS: O professor falava que eu poderia ser uma atleta olímpica. E quem não acredita num professor? Então, quando adolescente, participei de alguns campeonatos. Tive a oportunidade de fazer um teste no São Paulo, numa época em que o João do Pulo ainda treinava lá. Aí minha família biológica apareceu e todos os meus sonhos se foram: minha mãe veio de Porto Seguro,para São Paulo, arrumou um trabalho de empregada doméstica e, como precisava dormir no emprego, fui ser mãe dos meus cinco irmãos. Eu não era a mais velha, mas essa não era uma responsabilidade dos homens. Era uma época em que só se falava em deveres. Eu não sabia nada sobre direitos.

"A corrida sempre foi meu combustível. Deixava todo mundo dormindo e ia correr de madrugada (?). Saía eu e meus pensamentos, meus sonhos, criava projetos na minha cabeça, gritava, berrava, chorava, porque ninguém tava me ouvindo"

LS: Como foi a chegada ao Capão Redondo?
NS: Foi há quase 50 anos, vim com a minha mãe e irmãos. Depois conheci meu primeiro amor aqui. Ele foi muito generoso comigo e se tornou meu companheiro. Em seguida, tive filho. Meu marido foi assassinado na ditadura militar, era uma época em que os homens tinham que andar com a carteira profissional no bolso. Tinham que provar que eram trabalhadores. Meu marido trabalhava, mas não tava com a carteira profissional. Ele era negro, um alvo fácil. Foi assassinado por um policial militar. Se hoje ainda é difícil provar que um policial militar assassinou um negro, imagine no início da década de 70. Nessa década de 70 para 79, os negros no Capão Redondo foram exterminados. Tinha os "pé de pato" que se não iam com a cara de alguém, fuzilavam.

LS: Depois você perdeu seu filho Mark?
NS:
Meu filho já era casado, pai de duas crianças, quando foi assaltado e assassinado no bairro do Capão Redondo.

Neide Santos | Foto: Reprodução Instagram

LS: Mesmo assim, nunca abandonou a corrida.
NS:
A corrida sempre foi meu combustível. Deixava todo mundo dormindo e ia correr de madrugada, mesmo não mais treinando para alto rendimento – porque teve uma época que eu corria em competições, para trazer um dinheirinho pra casa. Saía eu e meus pensamentos, meus sonhos, criava projetos na minha cabeça, gritava, berrava, chorava, porque ninguém tava me ouvindo. Até briguei com Deus porque não entendia até quando ia sofrer. Era aquela revolução aqui dentro de mim. Eu tinha filhos para criar, os meninos precisavam de mim. E o Mark me deixou netos. Eu precisava ajudar a criar os filhos dele. Eu estava viva, né!? Até hoje acordo às 4h para 4h45 sair. Corro pelas ruas do Capão Redondo, vou até a Marginal e aí volto para cá.

"Antigamente essa rua que moro era chamada de "rua da morte" (?) Eu tinha na minha cabeça "um dia vou transformar essa rua na mais colorida do planeta para todos os meus amores passarem".
Fui atrás de políticas públicas e consegui transformá-la
na Rua de Brincar"

LS: Como fez da corrida um motor para transformar o lugar onde mora?
NS:
Antigamente essa rua que moro era chamada de "rua da morte" porque ela é isolada e os marginais aproveitavam quando os moradores chegavam tarde do trabalho para assaltar. Uma mulher foi assassinada aqui. Ao mesmo tempo, como é sem saída, é o melhor lugar para as crianças brincarem. Eu tinha na minha cabeça "um dia eu vou transformar essa rua na mais colorida do planeta para todos os meus amores passarem". Fui atrás de políticas públicas e consegui transformá-la na Rua de Brincar. Contra tudo e contra todos, porque eles não queriam. Eu falei: "Se vocês podem fechar o coração financeiro da cidade de São Paulo, que é a Paulista, eu posso fechar a minha rua também". Hoje a Rua de Brincar fica fechada aos sábados, domingos e feriados. Só que a gente utiliza ela a semana inteira para prática esportiva porque só vem aqui quem é morador ou visitante.

LS: A Rua de Brincar faz parte do Vida Corrida. E como nasceu o projeto da ONG?
NS:
Nasceu de um anseio das mulheres da comunidade, porque eu era a única que corria no Capão Redondo. E aí as mulheres falaram: "Pô, se essa mulher corre, eu também vou correr".

Crianças da parte sócio-cultural do Vida Corrida | Foto: Reprodução Instagram

LS: E por que você acha que elas não corriam?
NS:
Primeiro, porque somente os homens corriam, mulheres a gente ouvia falar pouco naquela época. Elas também tinham medo de entrar no parque que tem aqui perto, diziam que só tinha ladrão e traficante lá. Eu era a única que entrava porque tinha amigos homens que corriam comigo. Depois, apareci na televisão participando da São Silvestre e então a Maria Gonçalves veio correr comigo. Ela já tinha 60 anos. Imagine isso na década de 90? Em pouco tempo, já tinha mais de 30 mulheres correndo com a gente, todas do Capão. Elas acordavam de madrugada pra treinar, segunda, quarta e sexta. Aí em 2000 acontece a fatalidade com o meu filho Mark e eu começo a atender as crianças da comunidade aos sábados e domingos, aqui na Rua da Morte – que agora é a Rua do Brincar.

LS: Como é esse atendimento hoje?
NS:
É totalmente gratuito. Não há possibilidade de alguém contribuir para absolutamente nada. Entre os eixos que trabalhamos, destaco o bem-estar, porque é a primeira coisa que a mulher vai sentir. Ela vai no posto de saúde e o médico diz que tem que fazer atividade física. A gente tem um condicionamento e depois vai para a corrida. Quando está bem condicionada, tem opção, por exemplo, de jogar futebol. Temos aqui mulheres de 55 anos no nosso projeto "Feitas para Jogar". E elas têm acompanhamento de nutricionista, fisioterapeuta, assistente social.

Neide Santos acorda diariamente às 4h para treinar | Foto: Reprodução Instagram

LS: E o atendimento para as crianças?
NS:
As crianças entram aos 6 anos e ficam até a maioridade. Foi durante a pandemia que fui ajudando as famílias com computador, celular, para aula online. Fizemos uma parceria com a rede local para ter internet segura. Fomos criando essa relação com as pessoas e daí nasceu o "Futuro nas Mãos", que é a parte sócio-cultural do Projeto Vida Corrida. Hoje, nós temos seis filhos e filhas dessas mulheres da comunidade, negros e pardos, que estudaram em escola pública, fizeram Enem e conseguiram bolsa de 100%. O esporte nos ramificou para tudo que veio depois. Durante a pandemia inteira nós mantivemos as mulheres alimentadas. Depois percebemos a necessidade de atender com itens de higiene, produtos de limpeza. A gente foi encaixando tudo isso, educação, cultura, lazer, cidadania, equidade de gênero, meio-ambiente, sustentabilidade e fortalecimento de vínculos, que esse é o essencial.

LS: Quantos atendimentos vocês fazem?
NS:
São 400 crianças, 400 mulheres e agora, na primeira semana de abril, iniciamos mais um outro programa no período da tarde, que vai atender mais 200 mulheres, totalizando 1.000 atendidos no Projeto Vida Corrida.

"Hoje é um sentimento de pertencimento. As pessoas aqui falam "nossa rua", passam na casa do Vida Corrida e chamam de "nossa casa". Elas querem estar aqui e querem fazer parte"

LS: Você tem dimensão de como o Projeto Vida Corrida mudou o espaço público no Capão Redondo?
NS
: Eu já pleiteava um espaço aqui há muito tempo. Não tinha ideia do que era concessão até ler uma matéria no jornal sobre o Estádio do São Paulo estar num terreno da prefeitura. Fui pesquisar sobre políticas públicas e falei na Prefeitura sobre vários terrenos que tinha aqui, mas eles sempre queriam me dar um que não fazia parte do território, que era longe da comunidade. Até que eles me deram o espaço mais horrível que tinha, num barranco. Mas quando se quer, se faz, né? E aí daquele barranco a gente construiu a Casa Vida Corrida. Depois, por meio de emendas parlamentares, construímos a quadra e expandimos o nosso espaço, que é lindo, maravilhoso, com sala de aula, container, um coletivo, quadra?

LS: E como sente que ficou a relação das pessoas com o espaço público? O que mudou?
NS: Hoje é um sentimento de pertencimento. As pessoas aqui falam "nossa rua", passam na casa do Vida Corrida e chamam de "nossa casa". Elas querem estar aqui e querem fazer parte.

LS: Como acha que influencia outras mulheres da comunidade?
NS:
Todas as negações que tive, tudo que me foi negado a vida inteira, hoje eu busco proporcionar para meninas e mulheres do Capão Redondo. Quando concluí meus estudos aos 59 anos, pelo EJA, fui ao programa da Fátima Bernardes para falar sobre a importância de voltar a estudar. Naquela época o EJA bateu recorde de matrículas. Muitas mulheres da comunidade foram fazer matrícula porque me viram ali, como um exemplo. E eu nunca me envergonhei de nada. Celebro todos os lugares que me levam, todas as conquistas do Vida Corrida. Mas eu volto para o Capão Redondo, volto a amassar barro, volto para minha casinha de moradia popular. Tenho bem os pés no chão.

LS: Depois de mais de 50 anos correndo na rua, como é hoje a sua relação com o espaço público? O que ainda é difícil para você?
NS:
Tenho uma correntinha. Uso ela todos os dias. Quando saio, eu tiro. Não levo celular. Nunca uso o preto para correr de madrugada, sempre vou com roupas claras, é uma forma de câmeras, das pessoas me verem. Sempre procuro lugares com iluminação, nunca pego atalhos ou entro em ruas que não conheço. Não uso nada que chame a atenção, é uma forma que tenho de me proteger. Não dá pra abrir mão disso.

"Tenho certeza que ainda vou demorar um pouco para partir. Mas assim, no dia que eu partir, vou partir uma mulher plena. Eu me sinto plena. Cumpri meu propósito de vida. Estou bem com a sociedade, estou bem com Deus e com meu coração"

LS: Depois de uma trajetória tão difícil, agora com tantas coisas legais acontecendo, tem algum desejo que gostaria de realizar e que ainda não deu?
NS: Sinceramente, eu não me preocupo mais com meu futuro. Eu me preocupo com o futuro dessa geração que há de vir. Tenho certeza que ainda vou demorar um pouco para partir. Mas assim, no dia que eu partir, vou partir uma mulher plena. Eu me sinto plena. Cumpri meu propósito de vida. Estou bem com a sociedade, estou bem com Deus e com meu coração.

Agencia Pupura

Vida corrida Neide Santos

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